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A crise e o remédio do governo Lula

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Não há dúvida que a grave crise provocada pela política de terror neoliberal é o principal pano de fundo de toda a conjuntura internacional, inclusive nacional. O governo Lula procura de todas as formas minimizar a crise no país e vender a imagem de que no Brasil vai tudo bem, obrigado. Quer afastar a crise sem mudar os rumos de sua política econômica. Mas, para a massa consumir mais, precisa de salário, emprego, seguridade social e crédito facilitado.

A crise e o remédio do governo Lula

Foto: Roosewelt Pinheiro/ABr

A crise e o remédio
do governo Lula

 

Não há dúvida que a grave crise provocada pela política de terror neoliberal é o principal pano de fundo de toda a conjuntura internacional, inclusive nacional. O governo Lula procura de todas as formas minimizar a crise no país e vender a imagem de que no Brasil vai tudo bem, obrigado. Toda a vez que o presidente Lula vê um microfone ou holofote diz: “os fundamentos da economia estão sólidos”, sem dizer o que isso significa, e pede para a massa operária sair às compras, numa tentativa desesperada de tirar as conseqüências da crise de superprodução nacional de seu governo. Quer afastar a crise sem mudar os rumos de sua política econômica. Mas, para a massa consumir precisa mais do que discurso de incentivo. Antes de mais nada, precisa de salário, emprego, seguridade social e crédito facilitado.

O crédito nacional está nas mãos da oligarquia financeira. É ela que tem o poder de fato de definir a política e os custos do crédito nacional. Lula fala que os juros estão acima das contas, mas o “seu” Banco Central (BC), cujo presidente foi nomeado por ele ainda no primeiro ano do seu primeiro governo, mantém a taxa básica de referência do crédito nacional, a Taxa Selic, em 13,75% ao ano, de longe a maior do planeta Terra. Esta taxa está contra todos os brasileiros e contra toda a terapia global para a saída da crise financeira, mas o presidente eleito não vai além de discursos contra ela. Essa taxa é absurda e inexplicável uma vez que as tarifas bancárias, por si só, dão grandes lucros operacionais aos banqueiros. É a ditadura monetária, ou, como os banqueiros e o próprio governo tentam minimizá-lo, “austeridade monetária” sobre os brasileiros.

Os senhores do poder financeiro acham esse saque ainda pouco. Para conseguirmos um crédito direto ao banco (o CDC), está taxa salta para 47,47%, segundo a Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), três vezes e meio superior à taxa básica. No cheque especial, os custos do dinheiro saltam para 152,88%, isso por que a nossa inflação está sob controle e na casa dos 5% ao ano. Se deixarmos um saldo negativo de R$1.000,00 na conta bancária, os banqueiros têm o direito de expropriar o equivalente há duas vezes e meia a mais o valor devido, ou mais de R$2.528,00. Já no cartão de crédito, a taxa cobrada passa dos 277,26%. Se comprarmos uma mercadoria por R$1.000,00 nos é cobrado quase 4 vezes o seu preço de mercado, ou R$ 3.772,00. Apesar de Lula falar que o dinheiro não vai faltar, apenas 3 bancos privados controlam cerca de 40% do crédito nacional: Bradesco, Santander-ABN Amro Real e Itaú-Unibanco. Se a massa for às compras, se aprisionará ainda mais às correntes invisíveis do capital financeiro.

Como quem dá ordem no crédito são os três banqueiros e não o governo Lula, o presidente finge convencer os donos da produção nacional. Só que as grandes empresas da nossa economia são transnacionais, de capital privado estrangeiro. Isso significa que elas recebem ordem de comando das matrizes, não de um governo regional qualquer. As matrizes estão nos EUA, Europa ou Japão, países atolados na crise de superprodução. A ordem de lá é socorrer a empresa “mother”, “brother”. A ordem é transferir lucros das filias para a matriz e corte de custos na produção. Com isso, o aumento na remessa de divisas nos últimos meses provocou o maior desequilíbrio desde janeiro de 1999 no fluxo cambial nacional (dólares que entram menos os que saem), mesmo estando a balança comercial (exportação menos importação) com saldo positivo. Segundo dados da Bovespa, a soma da saída de capitais especulativos mais as remessas de lucros, entre os meses de junho a setembro, foram de R$19,1 bilhões.

Lula pede então que as empresas não demitam... Mas as demissões começaram justamente nas transnacionais em que o governo injetou recursos. As montadoras, mesmo com o aporte de R$ 4 bilhões de reais do governo Lula e mais outros R$ 4 bi do governo José Serra (SP), já mandaram embora centenas de operários. Dois terços da força de trabalho do setor ou 75 mil operários saíram de férias coletivas forçadas. Quem trabalha no setor sabe que isso significa o adiamento temporário das demissões. As empresas de auto-peças, bem como as terceirizadas instaladas dentro destas, serão obrigadas a reduzir sua atividade produtiva, logo demitindo e arrochando ainda mais os salários. A CSN, por exemplo, fornecedor de matéria-prima ao setor, está ameaçando demitir 6 mil funcionários, caso eles não abram mão da redução de salários ou direitos.

Mesmo no setor financeiro, onde os lucros estão bombando, as primeiras vítimas da fusão do banco Itaú com o Unibanco e da aquisição do Banco Real pelo Santander serão os bancários. Lula sabe que tem o governo, mas não o poder de comando ou controle da economia nacional (crédito e produção). Como vem repetindo na imprensa, o presidente-enfermeiro não vai revelar ao seu paciente terminal que com a dose homeopática administrada, no caso a política econômica social-liberal, ele vai “sifu” (palavra do próprio Lula). É claro que não. Tampouco o presidente vai propor um tratamento revolucionário para salvá-lo, pois todo seu corpo de auxiliares, assessores, instrumental e, particularmente, sua própria capacidade cultural, são incapazes de criar as condições para tal mudança no destino do país. Só lhe resta o incentivo espiritual.

 

José Tafarel

 

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