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Trabalhador brasileiro gastou em 2008 mais da metade do salário com comida

Essa matéria foi publicada na Edição 431 do Jornal Inverta, em 23/12/2008

O ano de 2008 foi de alta nos preços dos alimentos: o povo tem que trabalhar cada vez mais para comer. Só no último mês, a carne subiu 40,43% em Fortaleza. Já o peru de natal, custa cerca de 10 reais por quilo, e ficará longe da mesa no fim de ano.

Trabalhador brasileiro gastou em 2008 mais da metade do salário com comida


O ano de 2008 foi de alta nos preços dos alimentos: o povo tem que trabalhar cada vez mais para comer. Só no último mês, a carne subiu 40,43% em Fortaleza. Já o peru de natal, custa cerca de 10 reais por quilo, e ficará longe da mesa no fim de ano.

 

Com a crise, era de se imaginar que os preços caíssem devido à diminuição na renda e à queda do preço internacional do petróleo, que barateia o transporte. No entanto, a valorização do dólar faz subir o preço dos produtos importados, enquanto que produtos de exportação, como carne e soja, têm seus preços relativamente aumentados no mercado interno (caso do óleo de soja, que chegou a subir 27,66% em Vitória). O preço dos demais produtos também sobe, na medida em que deixam de ser cultivados nos grandes latifúndios em favor da soja, do milho e da carne. Em julho deste ano, o INVERTA denunciou que 82,4% da terra cultivada no Brasil destina-se à soja e ao milho, contra apenas 10,7% ao arroz e feijão.

Em novembro, os preços subiram em 11 das 17 capitais onde o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) mantém a Pesquisa Nacional da Cesta Básica. As maiores altas no mês foram em Vitória (5,90%) e Recife (3,44%).

No mês, houve pequena queda de preços apenas em 4 capitais, inclusive Porto Alegre (-0,34%), mas a cidade continua tendo a cesta básica mais cara (R$239,00), seguida por São Paulo (R$238,66) e Curitiba (R$228,00). Os menores preços são os de João Pessoa (R$174,83) e Recife (R$175,22) que, ainda assim, representam quase 46% salário mínimo líquido (salário mínimo após desconto da Previdência Social, atacada por Lula desde seu 1º mandato). Em média, em novembro de 2008 a compra da cesta comprometeu no país 54,88% do salário mínimo líquido. Há um ano, o comprometimento correspondia a 49,80%.

Nos últimos 12 meses, o preço da cesta básica subiu 27,76% em Fortaleza, 25,66% em Vitória, 25,54% em Natal, 23,04% em Curitiba, 16,15% em São Paulo e Belo Horizonte e 15,57% no Rio de Janeiro. As menores altas registradas foram em Aracaju (12,05%) e Belém (12,41%). No período, apenas a batata teve queda expressiva no país.

Por sua vez, os índices de inflação medidos pelo IBGE, utilizados pelo governo como base para o reajuste do salário mínimo, chegaram a apenas 6,39% (IPCA) e 7,20% (INPC). O IGP-M, por sua vez, medido pela não-estatal Fundação Getúlio Vargas e amplamente utilizado no reajuste das tarifas e dos aluguéis, chegou a 11,88%.

O preço do feijão, por exemplo, subiu mais de 80% em 6 capitais, chegando a dobrar em Florianópolis (113,78%) e Porto Alegre (108,26%) – região dedicada justamente ao cultivo de arroz e aos rebanhos bovinos. O aumento do preço do arroz ficou entre 21,37%, em Aracaju, e 49,02%, em Florianópolis.

O DIEESE estima que nesse final de ano as despesas mínimas de um trabalhador e sua família com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência, ou seja, o mínimo necessário para a subsistência, sejam de R$2.007,84, ou 4,83 vezes o salário mínimo em vigor (R$ 415,00). Assim, o valor da força de trabalho hoje se aproximaria de R$2.007,84, enquanto o salário mínimo avilta esse valor quase 5 vezes. Em novembro do ano passado, o valor da força de trabalho era de cerca de R$1.726,24, ou 4,54 vezes o salário mínimo de R$380,00.

Em média, o trabalhador brasileiro trabalha 111 horas e 4 minutos para conseguir dinheiro suficiente para adquirir a cesta básica, chegando a 126h em São Paulo e Porto Alegre. Esse dado do DIEESE, no entanto, se baseia no quanto o trabalhador recebe por seu trabalho, e não no valor efetivamente produzido por ele, podendo mascarar a essência do sistema capitalista: a capacidade do trabalhador de trabalhar, para o capitalista, durante um tempo muito maior que aquele necessário para produzir um valor equivalente ao das mercadorias consumidas na sua subsistência e reprodução (valor da sua força de trabalho). Muitas vezes, em questão de minutos de trabalho, o trabalhador já gera para o capitalista o equivalente ao seu salário mínimo de um mês (R$415,00), ou mesmo ao valor de sua força de trabalho (cerca de R$2.007,84). Cabe aos trabalhadores e trabalhadoras conquistar pela luta o direito a planificar a produção, para produzir toda a comida necessária a preços acessíveis para todos.

 

LSF

 

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