Crise afetará mais o Brasil em 2009
Essa matéria foi publicada na Edição 431 do Jornal Inverta, em 23/12/2008O país resistiu bem a essa primeira quebra, graças à economia mundial favorável nos últimos anos, à desindexação de parte da dívida e à exploração dos trabalhadores brasileiros: estrutura latifundiária, baixos salários, diversificação de exportações, mercado interno, investimentos em infra-estrutura e controle da inflação com privatizações e altas taxas de juros. Cada vez mais torna-se candente a organização dos trabalhadores.
Crise afetará mais o Brasil em 2009
O país resistiu bem a essa primeira quebra, graças à economia mundial favorável nos últimos anos, à desindexação de parte da dívida e à exploração dos trabalhadores brasileiros: estrutura latifundiária, baixos salários, diversificação de exportações, mercado interno, investimentos em infra-estrutura e controle da inflação com privatizações e altas taxas de juros. Mas o pior está por vir.
Com a generalização da crise, o Brasil sofreria as conseqüências de seu modelo de desenvolvimento capitalista associado à burguesia financeira internacional: subimperialista regionalmente e submisso ao imperialismo estadunidense e europeu. Toda a economia real do país está vinculada a transnacionais e ao sistema financeiro internacional direta ou indiretamente, seja através de filiais nacionais, seja pela garantia da acumulação de capital com abertura do mesmo nas bolsas ou contratação de crédito. Com o aprofundamento da crise, o Brasil seria peça-chave na geoestratégia do imperialismo, que necessitaria aumentar sua dominação sobre a América Latina em busca de mais mercados, matéria-prima e força-de-trabalho baratas.
Até agora, apenas a bolha do setor hipotecário e imobiliário dos EUA de fato estourou. Tenta-se evitar a generalização da crise para outros setores da economia e outras esferas da formação social através da estatização de parte do sistema financeiro e da liberação de crédito para as empresas em dificuldades, socializando as perdas à custa do bolso dos trabalhadores. É consenso, porém, a desaceleração da economia mundial em 2009. Em novembro, o PIB dos EUA caiu 0,6%, acumulando queda de 5,5% da produção industrial no ano e, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), os países ricos perderão 8 milhões de empregos.
Desdobramentos da crise
Depois dos “pacotes anticrise” estadunidense, inglês, europeu, chinês e até argentino, o governo brasileiro tem afirmado que “Já temos um pacote, que é o Pacote de Aceleração do Crescimento (PAC)”, formulado essencialmente como política fiscal de ação anticíclica. No entanto, para além do PAC, o governo já tomou muitas medidas para conter a crise: a venda de US$50 bilhões das divisas nacionais para frear a valorização do dólar, o controle da taxa de juros, o acesso de empresas nacionais a divisas depositadas no exterior, o corte do IPI até março, o aumento do seguro-desemprego, a facilitação do crédito para moradia e bens de consumo duráveis, como carros e eletrodomésticos, a facilitação de redesconto no Banco Central para os bancos comerciais, a liberação de compulsórios e até a compra de um banco estadual pelo Banco do Brasil.
De presidente do país Lula tem se rebaixado a escuso mediador de conflitos em nome da burguesia brasileira e da oligarquia financeira internacional a ela associada. Após recente reunião com empresários, afirmou: “Foi a melhor reunião de que já participei. (...) Discutimos para que nenhum empresário dispense trabalhador, porque é importante manter o nível de emprego. Eu assumi o compromisso de conversar com os dirigentes sindicais para saber da possibilidade de estabelecermos acordos em alguns setores que foram mais afetados”. Recentemente, a Vale pediu ao governo a flexibilização da CLT, para “evitar” a demissão de 1.300 funcionários.
Cerca de 20% a 30% do crédito que entrava no país o fazia por empresas que contraem empréstimos no exterior. Os setores mais afetados pela crise serão, portanto: a) aqueles que mais dependem de crédito externo e b) aqueles com matriz nos EUA e Europa. Ou seja, os de exportação, construção civil e o de automóveis, além do próprio sistema financeiro.
Dentre os desdobramentos da crise no Brasil, certamente haverá grande aumento no desemprego. A construção civil, por exemplo, tem baixa composição orgânica de capital, e representa milhares de empregos. No caso da indústria automobilística, juntam-se os dois elementos: há uma superprodução nesse setor e o acesso ao crédito é essencial para a realização dos produtos através da venda, constituindo nossa pequena “bolha subprime” com descasamento de prazos no financiamento de veículos; além disso, as matrizes da indústria já sofrem com a crise, que deve repercutir sobre as filiais. Nos EUA, Ford, Chrysler e GM pediram ao governo US$ 34 bilhões. Só a GM já fechou 3 fábricas, demitindo 2 mil trabalhadores. Na Alemanha, a Volkswagen paralisará a produção por três semanas, enquanto a Daimler a reduzirá. A Fiat fechou suas fábricas da Itália por quase 1 mês. No Brasil, a desoneração do IPI aumentou as vendas, mas ainda não será suficiente. No dia 15, a alemã MAN Aktiengesellschaft anunciou a compra da Volkswagen Caminhões e Ônibus por cerca de R$2,83 bilhões.
Já a exportação, principal responsável pelo superávit em transações correntes, se vê dificultada pela queda da renda mundial. No entanto, a desvalorização do dólar pode compensar a queda dos preços de algumas commodities de primeira necessidade (soja, milho, carne), causando o encarecimento das mesmas no mercado nacional e o encarecimento generalizado dos alimentos através da substituição do plantio diversificado e do fim da já pequena agricultura familiar. A queda nos preços do petróleo, que barateia o transporte, poderá não ser suficiente para anular essa tendência, além de prejudicar a Petrobras e de nublar os planos do governo Lula para a custosa exploração do pré-sal.
Além dos alimentos, haverá um aumento no custo de vida da classe operária em geral, com dificuldades de financiamento da casa própria e dificuldades de obtenção de crediário, além do já mencionado aumento do desemprego e do corte do orçamento do Estado para seguridade social, saúde e educação, buscando o “ajuste fiscal” de suas contas. No setor bancário, as demissões já começaram – produto da crise financeira e das fusões, com sobreposição de redes e de cargos internos. O acesso ao crédito, pessoal e para a indústria, será menor. A crise trará de volta, ainda, a questão do nível de centralismo e planificação do Estado, colocando a luta pela estatização e contra as privatizações na ordem do dia, em contraposição aos “pacotes .de ajuda” do governo às empresas, ao estilo Proer.
É verdade que a burguesia nacional poderia inclusive beneficiar-se dela em detrimento dos trabalhadores, se fizesse essa opção política. Mas o que o Brasil verá é a concentração e centralização de capital, sentida pelo povo no aumento da composição orgânica de capital com a quebra de pequenas empresas e desemprego massivo, repressão e violência generalizadas. A massa de lucro dos grandes monopólios que sobreviverem aumentará, e quem pagará o pato é o trabalhador.
Estão dadas as condições objetivas, e o pior está por vir. É hora de aproveitar a crise para avançar na construção do socialismo.






