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Perspectivas para 2009: A administração Obama e os conflitos bélicos no mundo

Essa matéria foi publicada na Edição 431 do Jornal Inverta, em 23/12/2008

A chegada ao poder da nova Administração nos Estados Unidos com a crise econômica e conflitos regionais como pano de fundo, nos fazem pensar sobre os possíveis desfechos dos atuais conflitos e também nas possibilidades dos que poderão ocorrer durante o mandato do presidente eleito Barack Obama. Sempre tendo em perspectiva os interesses que permitiram com que Obama fosse eleito e o que representaria sua vitória para a luta de classes dentro dos EUA neste momento de crise, buscamos compreender como pode mudar a política militar dos EUA através da análise dos nomes daqueles que serão os responsáveis das entidades encarregadas dos assuntos de defesa.

Perspectivas para 2009: A administração Obama e os conflitos bélicos no mundo


A chegada ao poder da nova Administração nos Estados Unidos com a crise econômica e conflitos regionais como pano de fundo, nos fazem pensar sobre os possíveis desfechos dos atuais conflitos e também nas possibilidades dos que poderão ocorrer durante o mandato do presidente eleito Barack Obama. Sempre tendo em perspectiva os interesses que permitiram com que Obama fosse eleito e o que representaria sua vitória para a luta de classes dentro dos EUA neste momento de crise, buscamos compreender como pode mudar a política militar dos EUA através da análise dos nomes daqueles que serão os responsáveis das entidades encarregadas dos assuntos de defesa.

A confirmação de Robert Gates na qualidade de chefe do Pentágono, a nomeação de James Jones como Conselheiro Nacional de Segurança e a de Hillary Clinton como Secretária de Estado permitem afirmar que os EUA não planejam suspender as operações militares que atualmente desenvolvem, ainda que em algumas zonas onde atuem as tropas estadunidenses possam ocorrer mudanças importantes.

Atualmente fala-se da retirada das tropas estadunidenses do Iraque, principal promessa de campanha, num prazo de 16 meses, como se a simples saída das tropas pusesse um fim ao conflito. Isto não deve ocorrer já que as empresas que aí se consolidaram para explorar os recursos naturais não abrirão mão do que se apropriaram, acirrando ainda mais o conflito de interesses interno na sociedade iraquiana. Nesta conjuntura, sabemos que nenhuma das partes envolvidas na guerra civil no Iraque conta com a supremacia militar e política necessária para consolidar todo o país sob seu poder, fazendo-nos acreditar que o conflito continuará.

Por outro lado, o conflito no Afeganistão tem se intensificado e mostra sinais de que pode piorar. Como declarou Obama, “a luta contra o terrorismo no Afeganistão será uma das tarefas prioritárias de Washington”. Em conseqüência, o Pentágono já anunciou o plano de aumentar o contingente militar no Afeganistão até mais de 50.000 efetivos. Este conflito tem respingado nas relações com outro país, o Paquistão, que já teve seu espaço aéreo violado inúmeras vezes e aldeias bombardeadas pelos estadunidenses.

Possivelmente, o Irã ficará na lista dos objetivos prioritários dos EUA, mas sob as condições atuais, Washington dificilmente optará por desatar uma nova guerra no Golfo Pérsico. A opção será pressionar o Irã internamente, apoiando as forças que fazem oposição ao atual regime.

O conflito entre Israel e a Palestina tampouco irá mudar. A nova Secretária de Estado, a senadora Hillary Clinton, foi uma das principais receptoras democratas do financiamento das organizações pró-Israel para o ciclo eleitoral de 2006, o que lhe permitiu embolsar 83.000 dólares. Além disso, já demonstrou seu apoio a Israel através de visitas e durante seu encontro com o Premiê Ariel Sharon, disse: “ Sempre recordo vividamente as ameaças que Israel tem que enfrentar em todos os momentos… Ficou ainda mais claro como é importante que os EUA permaneça junto a Israel…”. Sobre o muro que estão construindo entre Israel e a Palestina, que terá 700 quilômetros de distância, disse: “Este muro não vai contra o povo palestino, vai contra os terroristas. O povo palestino tem que ajudar a impedir o terrorismo. Têm que mudar de atitude com relação ao terrorismo”.

 Certamente, o espaço pós-soviético continuará sendo zona de atenção especial e de disputa, sobretudo, a zona do mar Negro, onde os EUA reforçaram sua presença naval. O apoio dos EUA à Geórgia no conflito contra a Ossétia do Sul já nos demonstrou por onde caminham as intenções da superpotência militar. De todas as maneiras possíveis os EUA tentarão com que a Ucrânia e a Geórgia sejam admitidas na OTAN. A proposta de Washington conta com apoio da Polônia, onde pretendem instalar seu escudo antimíssil, e dos países bálticos, mas o resto dos países membros da aliança se posiciona contra, porque consideram que ainda não é o momento para dar esse passo. Porém todo esse debate coloca em evidência as intenções dos EUA sobre a região, intensificando cada vez mais a disputa de sua influência com a Rússia, estimulando um possível conflito da última com nações como a Geórgia.

Com todas as atenções voltadas para o Oriente Médio e o Leste Europeu, serão poucas as possibilidades de novas guerras em outras regiões do mundo. Porém, isso não significa que os tentáculos do imperialismo não estarão presentes na América Latina, e um exemplo concreto disso é a reativação da IV Frota nessa região. Seria uma ilusão achar que suas garras não estariam voltadas para os incontáveis recursos naturais da nossa Amazônia, para o petróleo e para a grande bacia hidrográfica que temos.

Para a elite democrata estadunidense, a estratégia para pressionar aos países ou governos adversos consiste em apostar pelo fator interno, não apostando pela intervenção direta, mas colocando em prática sua ingerência através da cooperação e do apoio às forças políticas leais aos EUA nesses países. Podemos esperar que mais dinheiro e apoio, seja através de ONGs ou das próprias embaixadas estadunidenses, cheguem aos grupos opositores na Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua, com o objetivo de fortalecê-los e de intensificar a contra-revolução nestes países. Uma maneira de desestabilizar a Venezuela, por exemplo, é através do apoio ao governo narcotraficante e paramilitar de Álvaro Uribe na Colômbia, com dinheiro, armas e inteligência militar, como pudemos comprovar nas ações que ocorreram este ano contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército do Povo (FARC-EP). Já estão mais que comprovadas e denunciadas as ações de grupos paramilitares colombianos que se infiltraram em território venezuelano para desestabilizar o governo e levar terror à população. Os resultados das últimas eleições na Venezuela refletem esse cenário: não é à toa que a oposição ganhou em estados que fazem fronteira entre essas duas nações irmãs.

Agora resta saber como a atual crise econômica global, que apenas está começando, irá afetar de forma determinante os planos políticos das potências mundiais e a expressão dos interesses das mesmas. Só não podemos esquecer que a guerra tem historicamente sido uma solução para as crises, através da destruição e, depois, reconstrução das forças produtivas. Crise e guerra andam de mãos dadas.

 

Camila Rocha

 

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