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Plano médio ao 30º Festival de Cinema de Havana

Essa matéria foi publicada na Edição 431 do Jornal Inverta, em 23/12/2008

Em festivais de cinema, as pessoas se habituam a sua linguagem. Por isso, agora convém fazer um plano médio a este filme chamado 30º Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano. Focalizaremos vários personagens. Vamos vê-los de corpo inteiro nestas tomadas. Todos são atores principais.

Plano médio ao 30º Festival  de
Cinema de Havana


Em festivais de cinema, as pessoas se habituam a sua linguagem. Por isso, agora convém fazer um plano médio a este filme chamado 30º Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano.

Focalizaremos vários personagens. Vamos vê-los de corpo inteiro nestas tomadas. Todos são atores principais.


Orlando Senna. Brasileiro. Ex-diretor da Escola de Cinema e TV de San Antonio. Dirige um programa de produção e distribuição na TAL (Televisão América Latina), uma rede de 160 emissoras públicas de televisão em todo o continente. No Festival apresentam a série Los latinoamericanos. O documentário foi filmado por Arturo Sotto e intitula-se Breton es un bebé, de Cuba.

O que significou o Festival para o cinema da região e quais suas perspectivas?

É como se estivéssemos celebrando na verdade nossa vida de cineastas latino-americanos, porque foi aqui, neste Festival, que finalmente se consolidou o conceito de cinema latino-americano. Considero muito importante que não esteja voltado para o passado, mas o menciona. Está voltado para o futuro. O mais importante é a abertura aos jovens para que possam fazer melhor o que nós começamos.


Podemos continuar chamando-o de “novo”?

Com certeza, porque o conceito de novo tem a ver com o Movimento do Novo Cinema e também com o fato de que nós estamos condenados a sermos inovadores. Glauber Rocha disse: o novo é eterno, no sentido de que temos que fazer o novo cinema a cada dia.


Mike Leigh. Um dos mais prestigiosos realizadores britânicos. Recebe uma homenagem em Havana com um ciclo de dez de seus filmes. Apresentou seu mais recente título, Happy-Go-Lucky, e ofereceu uma entrevista coletiva.


Em que o senhor trabalha agora?

Minha cabeça está cheia de idéias, mas é muito difícil encontrar financiamento, especialmente neste momento, que o mundo capitalista enfrenta uma situação difícil.


Que é o cinema para o senhor?

Sempre quis fazer filmes como a realidade. Para mim, cinema é capturar a vida e compartilhá-lo.


Como trabalha com os atores?

Não faço roteiros. Ninguém sabe de que trata o filme até que começo a filmagem. É uma viagem de descoberta. Claro, tudo começa em algum lugar. Por exemplo, em Vera Drake lembrava o que era o aborto na Inglaterra nos anos 50; e em Secretos y mentiras, sobre a adoção, tive uma experiência em minha família.


Por que não Hollywood?

Respondo a pergunta com uma simples pergunta: por que eu deveria ir a Hollywood? Não existe razão nenhuma. Eu quero mostrar a vida européia e de meu país. Embora compreenda que a pergunta é correta, porque se trata de uma doença de muitos diretores britânicos: ajoelhar-se perante Hollywood.


Fernando Pino Solanas: argentino. Diretor de longas-metragens emblemáticos e inesquecíveis como La hora de los hornos, Los hijos de fierro, Sur ou Tangos - El exilio de Gardel e de inúmeros documentários.

O senhor é um dos fundadores. Como percebe agora o Festival?

Em 30 anos, este Festival ganhou tanto prestígio pela obra realizada que, sem dúvida, é um ponto de referência do cinema latino-americano. Aqui vêm especialistas, porque se concentra a melhor produção do ano da América Latina. Para os cineastas, é o ponto de encontro, a vitrine. Antes de mais nada, nosso agradecimento ao povo cubano que financiou, apesar das penúrias, com toda generosidade, este lugar de encontro para o melhor cinema nosso, e a Alfredo Guevara que é sua alma.

 

Seu documentário “La próxima estación-Historia y reconstrucción de los ferrocarriles” está em concurso.

É o quarto documentário - de 115 minutos - de cinco que estou fazendo sobre a crise na Argentina. Este destaca as conseqüências que trouxe a privatização dos transportes e a catástrofe que foi a supressão dos trens.


Daniel de Oliveira e Vanessa Giacomo. Brasileiros. Muito conhecidos por suas performances em telenovelas. Trabalharam juntos e apaixonaram-se na gravação de Cabocla e vão encontrar-se novamente em outra telenovela Paraíso.

A telenovela?

Gostamos muito de cinema, mas a televisão é mais popular, chega a mais pessoas e no Brasil é fundamental, porque temos uma cultura muito forte em telenovelas.

De Oliveira traz ao Festival o filme A Festa da Menina Morta, concorrendo como Ópera-Prima, do diretor Matheus Nachtergaele. Ele comentou: “Uma tragédia familiar. Falamos também de cultos religiosos, da fé, da diversidade da Amazônia cultural e religiosa do Brasil”.


Francisco Lombardi. Peruano. Neste festival participa como júri de longa-metragem de ficção. Dois filmes o consagraram internacionalmente, La ciudad y los perros e La boca del lobo.

Projetos?

Acabo de terminar um filme, curto, feito em formato digital, Un cuerpo desnudo, vai para o próximo Festival. É um filme sobre o machismo. Uma noite, um grupo de amigos, que se reúne no primeiro sábado de cada mês para jogar, encontra um corpo nu. Isto coloca em conflito o grupo e aparece o machismo.

Quais características o senhor adverte nos novos cineastas a respeito da geração que fundou o Novo Cinema Latino-Americano?

É muito mais experimental. Por exemplo, o cinema que está marcando é o argentino, porque produz muitos filmes, tem um sistema de ajuda estatal que é invejável e termina fazendo quase uma centena de filmes por ano. Como é um cinema, de alguma maneira, muito subsidiado, permitiu-se a experimentação. O que mais me preocupa disso é que se afastou do público. Acredito que nós não soubemos encontrar o caminho para chegar mais ao público, e agora mais que está toda essa cultura dos multicinemas e que a presença do cinema norte-americano, sua indústria, é tão forte, porque é dono de tudo, distribuição, exibição, tudo. Então, é um momento em que deveria-se buscar caminhos que possam aproximar mais nosso cinema do público. Ter um certo diálogo com o espectador. Isso, digamos, é o negativo. O positivo, claro, é que ao filmar sempre se encontram novos elementos e surgiram muitos cineastas novos.

 

Mireya Castañeda

 

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