O Brasil resiste à crise?
Essa matéria foi publicada na Edição 429 do Jornal Inverta, em 29/10/2008A reunião dos G-20 presidida pelo ministro da Economia Guildo Mantega, com a presença do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, mostrou a gravidade da crise, e teve como principal tema a crise financeira mundial. O governo brasileiro declarou que o país estaria imune à crise, mas se previne quanto a ela, em declaração em Washington, Mantega afirma que o plano de crédito do G-7 deixa de fora os países emergentes.
O Brasil resiste à crise?
O governo brasileiro tem afirmado reiteradamente que o Brasil estaria imune à crise. Ao mesmo tempo, no entanto, está progressivamente armando o terreno para o caso de que seja necessária a intervenção do Estado.
Após presidir rotativamente a reunião do G-20 em Washington, o ministro Guido Mantega afirmou que o plano de crédito traçado pelo G-7 “não seria suficiente para conter a crise, pois deixa de fora os países emergentes”. Bush participou da reunião, convocada apenas para ministros e presidentes de bancos centrais, sinalizando a gravidade da economia estadunidense e a urgência de medidas que tentem conter o estouro da crise.
Até agora, apenas a bolha do setor hipotecário e imobiliário dos EUA de fato estourou. Tenta-se evitar a generalização da crise para outros setores da economia e outras esferas da formação social através da estatização de parte do sistema financeiro e da liberação de crédito para as empresas em dificuldades, socializando as perdas à custa do bolso dos trabalhadores.
O Brasil resistiu bem a essa primeira quebra, produto da economia mundial favorável ao país nos últimos anos, tendo um volume recorde de reservas, suficiente para agüentar as recentes flutuações do dólar através de políticas e open market do Banco Central; a inflação oficial está dentro da meta governamental, ainda que a real tenha estado ligeiramente acima.
Segundo Dilma Roussef, as reservas do Brasil são “robustas”, e suficientes para garantir o crédito através do BNDES. A ministra destaca, ainda, que as dívidas externa e interna do país não estão denominadas em dólar como em 1999, reduzindo o impacto da desvalorização do real.
No entanto, a crise pode afetar, e muito, o Brasil. Se a tendência de queda nos preços das commodities se mantiver, o Brasil poderá perder pelo menos US$ 8,4 bilhões no superávit de sua balança comercial, segundo o BNDES. Seria uma perda de 21% do superávit registrado em 2007, quando o saldo foi de US$ 40 bilhões. Isso já levando em conta a valorização do dólar, que esteve até agora artificialmente desvalorizado exatamente devido à bolha de crédito nos EUA, que provocou a migração de dólares em busca de taxas de juros mais altas.
A Balança Comercial brasileira (diferença entre as exportações e as importações) é justamente a maior fonte de poupança para a constituição das tais “reservas robustas”. Além disso, a TJLP - taxa para os empréstimos do “banco oficial do PAC”, o BNDES – é muito menor que a taxa básica da economia (Selic), mas não é suficiente para comandá-la e generalizar os investimentos. Por ser de longo prazo, é ainda mais suscetível ao descasamento de prazos no caso de a crise se generalizar.
Segundo Dilma, o PAC não deve ter seus recursos diminuídos devido à possibilidade de generalização da crise. O programa seria exatamente o instrumento anti-cíclico através do qual o governo pretende manter as taxas de investimento e evitar o amplo descolamento entre crédito e economia real. Quando perguntada sobre a liberação de crédito para os setores do sistema financeiro em dificuldades, Dilma afirmou que o governo “não pretende socializar as perdas”, mas reiterou dubiamente que “uma das funções do governo é a manutenção do crédito”.
Com a generalização da crise, o Brasil sofreria ainda as conseqüências de seu modelo de desenvolvimento associado à burguesia financeira internacional. Para garantir seus enormes lucros, as oligarquias burguesas do país se casaram, de papel passado, com os grandes monopólios transnacionais, em um país cuja transição efetiva para o modo de produção capitalista se deu já durante o imperialismo, mas não deixa por isso de ser capitalista.
Assim, o sistema financeiro nacional está umbilical e diretamente ligado ao sistema financeiro internacional, através do sistema de participação por ações. Sem a intervenção sobre a seguradora gringa AIG, por exemplo, provavelmente o brasileiro Unibanco teria se visto à beira da bancarrota. Todos os seguros do banco (médio e longo prazos) estão vinculados à AIG.
Da mesma maneira, toda a economia real do país estaria vinculada à crise mundial. Parte dela diretamente, constituída pelas filiais dos grandes monopólios transnacionais instaladas no país. A quebra de apenas um desses gigantes, a GM, por exemplo, significaria materialmente o fim de centenas de milhares de empregos e a diminuição do PIB do Brasil. A parcela da economia real que tem capital nacional, como a Vale, a Odebrecht, a Votorantim ou a Coteminas, também está umbilicalmente associada à reprodução internacional do capital, quer seja pela abertura de suas quotas na bolsa à compra por bancos de investimentos (os mesmos que acabaram de quebrar, como Lehman Brothers e Merril Lynch), quer seja pelo crédito contraído dentro do próprio país para garantir a acumulação de capital.
Em um cenário de aprofundamento da crise do capitalismo mundial, o Brasil seria peça fundamental na geoestratégia do imperialismo, que necessitaria aumentar sua dominação sobre a América Latina em busca de mais mercados, matéria-prima e força de trabalho barata, tentando frear a tendência à queda da supertaxa de lucros monopolista. Esse cenário se acentua com a recente descoberta das jazidas pré-sal, essenciais no momento da declarada crise do padrão energético imperialista.
Assim, se o pior da crise ainda está por vir, podemos esperar suas conseqüências, sim, no Brasil. E suas conseqüências sobre os bolsos de todos os trabalhadores e trabalhadoras brasileiros, que estarão à mercê do desemprego, da carestia e do assalto ainda maior aos direitos sociais mais básicos, como a saúde e a educação, em busca de superávit primário para criar bolsões de resistência à crise.
Se o Brasil quisesse realmente se blindar contra a crise, o governo federal deveria estatizar as instituições em dificuldades, garantindo os empregos dos trabalhadores. Um mega-Proer apenas repassará para o povo a conta dos banqueiros. A crise só será superada de fato quando os trabalhadores se organizarem para superar o próprio capitalismo.






