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Amazônia: o último tesouro planetário

Essa matéria foi publicada na Edição 417 do Jornal Inverta, em 23/10/2007

A humanidade atravessou pelo menos três etapas bem distintas de progresso. A primeira delas correspondeu ao período mais longo de seu desenvolvimento. Compreende a fase mais difícil dos primeiros passos da humanidade.

Amazônia1: o último tesouro planetário (I)


A humanidade atravessou pelo menos três etapas bem distintas de progresso. A primeira delas correspondeu ao período mais longo de seu desenvolvimento. Compreende a fase mais difícil dos primeiros passos da humanidade.


Começa no período paleolítico, chamado de idade da pedra lascada, e termina com a revolução industrial. Nesse período, o bicho homem descobriu o fogo, o pastoreio, a agricultura e a manipulação dos metais, nas figuras do bronze, cobre e ferro.


Estas descobertas permitiram a fixação das comunidades em determinadas localidades e o aparecimento das grandes civilizações humanas de que se guarda notícia nas regiões mais favoráveis à reprodução da vida, de preferência com fartura de água e boas pastagens para a criação de animais. Estudamos as civilizações antigas como a do Norte da África, cujo ápice é o Egito, os povos da Mesopotâmia e da Índia, que compõem a civilização indu-arábica, os povos do Mediterrâneo e da China, dos quais aprendemos os saberes que até hoje formam nossa estrutura mental e de compreensão de nossa existência.


Este intervalo de tempo pode ser visto como uma fase, porque o homem dependia, na verdade, das máquinas simples, acionadas por força humana ou de tração animal e sem nenhuma fonte produtora autônoma de energia, para executar todos os seus trabalhos e construir tudo o que estava a sua volta. Eram a roldana (fixa e móvel), a polia, a alavanca, o plano inclinado, a cunha e o parafuso. Mais tarde o homem aprende a dominar a força dos rios e dos ventos construindo os moinhos hidráulicos e eólicos. Com estes conhecimentos chegamos até a Revolução Industrial.


A conseqüência desse longo período era que as necessidades humanas eram compatíveis com a capacidade de fornecimento de energia que a natureza era capaz de fornecer. Enfim, havia um equilíbrio entre a sobrevivência do homem e a energia em disponibilidade pelo meio natural. De modo igual, a continuidade da agricultura dependia de devolver para a natureza os nutrientes dela retirados, seja pela forma de utilização da terra, pela rotação de plantações e o aproveitamento de dejetos animais e restos de orgânicos em decomposição.


Enfim, havia o equilíbrio entre energia para sustentar as civilizações e a reprodução da natureza. O homem olhava para a natureza como um ser do qual dependia, respeitava e tantas vezes divinizava.


A segunda fase da humanidade possui como marco à Revolução Industrial. Ela passa a ser um grande divisor de águas. Inicia com uma seqüência de descobertas mecânicas a partir de 1750, ligadas ao ramo têxtil, que provocam autêntica revolução no modo como o homem estava habituado a viver.


É justo o período em que se consolida o capitalismo industrial com o advento das máquinas ferramentas para imitar em vertiginosa velocidade os movimentos e habilidades da mão humana e as máquinas motrizes com força autônoma, regularidade e extraordinária potência, não mais dependente da mãe natureza, fosse pela abundância dos rios ou o regime dos ventos, para conceder movimento às máquinas motrizes.


Máquinas ferramentas e motrizes passam a coabitar na fábrica e acionadas pela força de trabalho inauguram a produção em grande escala capaz de despejar milhares de mercadorias a serem vendidas. O tear e a máquina a vapor inauguram o capitalismo industrial. Surgiram as grandes cidades e as metrópoles.


Ao começar este período, opera-se também nova forma do homem olhar a natureza. Sente que aparentemente não necessita mais dela. E a civilização capitalista se desprende da natureza e passa a submetê-la, quando antes, dela a sociedade humana era submetida. Não há mais obstáculos para o progresso e ação das máquinas. Assim se imaginava. Os motores à explosão – a gasolina e diesel –, as caldeiras a óleo grosso e cru e os motores elétricos extrapolavam o consumo de energia para o homem manter a própria sociedade que construíra para seu bem estar.


Há um descolamento violento entre a utilização da energia e a capacidade da natureza em receber de volta o que retiraram dela. O homem rompia o tênue equilíbrio da sobrevivência, mas como é ainda no começo da revolução industrial as conseqüências não eram sentidas. No máximo, pairavam certas desconfianças na capacidade destruidora do dito progresso.


Não foi apenas a revolução industrial que pontificou. Surgiu como decorrência, mais tarde no século XX, a revolução verde com a descoberta de sementes híbridas mais resistentes e produtivas, combinadas com pesticidas, herbicidas e adubos químicos que aumentaram a produtividade agrícola, possibilitando a agricultura em ampla escala.


Conseguiram colocar inédita quantidade de alimentos à disposição da humanidade, mas dentro do mesmo princípio de não observar a sustentabilidade da natureza em suportar esses cultivares no longo prazo. Verificou-se a necessidade de uso cada vez mais intenso dos adubos, dos herbicidas numa proporção desmedida, fora dos limites que a natureza impõe a si mesma por não conseguir ultrapassar. E este mesmo desenvolvimento técnico e científico que permite um frango comum, criado pelo homem em condições mais naturais em seis meses a bom peso para abate, para 28 dias nos dias de hoje. Na verdade, é um frango de fábrica.


Esta revolução industrial também atravessa sub-fases e expira em 1950. Toda ela se fundamenta no movimento mecânico de materiais e coisas produzidas pelo homem e por esta característica marcante delimita este segundo período.


(Em breve, chegaremos a Amazônia, paciência com o raciocínio...)


José da Silveira Filho




1 Palestra proferida por ocasião do IV Seminário de Lutas Contra o Neoliberalismo, em 23 de setembro de 2007, no auditório Milton Santos da Universidade Federal Fluminense em Niterói.

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