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Mortalidade de jovens: perversa estatística

Essa matéria foi publicada na Edição 411 do Jornal Inverta, em 26/04/2007

O avanço das taxas de homicídios no Brasil nas últimas duas décadas ocorreu devido ao aumento da mortalidade entre os jovens. A conclusão é do Mapa da Violência 2006, pesquisa publicada pela Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI).

Mortalidade de jovens: perversa estatística


    O avanço das taxas de homicídios no Brasil nas últimas duas décadas ocorreu devido ao aumento da mortalidade entre os jovens. A conclusão é do Mapa da Violência 2006, pesquisa publicada pela Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI). Segundo o Mapa, a taxa de homicídios na população de 15 a 24 anos saltou de 30 (a cada 100 mil jovens) para 51,7, entre 1980 e 2004. Nas demais faixas etárias, porém, o índice passou de 21,3 para 20,8 no período.

    Entre 84 países, o Brasil ocupa a quarta posição, com uma taxa total de 27 homicídios em 100 mil habitantes (incluindo todas as faixas etárias), só ficando atrás da Colômbia, da Venezuela e da Rússia. Quando se consideram somente os jovens, o Brasil sobe para a terceira posição.

    Apesar de menos expostos às doenças e epidemias, os jovens são a parcela da população mais sujeita à morte por fatores externos: 60,4% dos óbitos na faixa etária entre 16 e 24 anos (praticamente três em cada cinco mortes) são causados por homicídios, acidentes de carro e suicídios.

    Para o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, autor da pesquisa, os números são reflexos da desigualdade social no país: “Basicamente, esse caráter de exclusão faz com que a vida não tenha valor. Nossas pesquisas mostram que 60% das vítimas não atuam profissionalmente no crime. São jovens que, por motivos banais, matam e morrem com facilidade”.

    A taxa de morte por assassinato atinge 3% da população não-jovem, enquanto entre os jovens chega a 39,7%. A pesquisa da OEI revela ainda que, embora os homicídios prevaleçam na faixa de 20 a 24 anos, a faixa entre 14 e 16 anos tem apresentado maior crescimento nos últimos anos. A maior parte das vítimas é do sexo masculino 93,7%. E 64,7% são negros, ou quase o dobro do percentual de jovens brancos assassinados no período (34,9%).

    De acordo com Waiselfisz, somente políticas públicas específicas podem reduzir os índices: “A maior parte dos jovens não tem acesso a benefícios sociais básicos, como educação, trabalho, saúde. Esse tipo de exclusão provoca contornos de violência. Prova disso é que os estados mais violentos não são os mais pobres, mas aqueles onde há maior concentração de renda e conflitos entre riqueza e pobreza”.

    Os dados mais recentes evidenciam e mostram, com particularidade, a desigualdade marcada pela cor da pele. O Brasil, aos olhos do mundo, aparece como a pátria da diversidade racial. No entanto, ser negro e jovem é grande fator à vulnerabilidade de morte prematura.

    A causa da mortalidade infanto-juvenil está nos milhares de jovens fora da escola, perto das drogas e cada dia mais longe de uma perspectiva de futuro. Crianças e adolescentes com a idade de 11 anos pegando em armamento pesado para defender territórios em confrontos com comandos da polícia e grupos rivais. Planos de repressão em massa e Estado ausente fazem da milícia, na verdade, a resposta a essa violenta substituição do Estado constituído por um poder paralelo, que abusa das armas e julga, condena e executa moradores de favelas e da periferia.

    As taxas de violência nos últimos anos dispararam em pelo menos dez países de quatro continentes. Em alguns deles, o número de mortos por armas de fogo já é maior até do que de países oficialmente em guerra. E pior: grande parte das vítimas é de jovens com menos de 18 anos. É importante destacar que a maioria dos jovens que morrem por arma de fogo no mundo são pobres e moradores de favelas. As favelas têm sido um território onde as mortes violentas, ocorridas no seu interior, tendem a ficar sem punição, sejam aquelas cometidas pelos envolvidos no tráfico de drogas, sejam as outras efetivadas pela polícia. Isso está diretamente relacionado com o lugar que a favela e a periferia ocupam no imaginário coletivo: território sem lei, lugar de bandido, conivência com o tráfico. A violência policial contra a juventude negra se torna menos importante, e até mesmo justificável para as classes dominantes, diante da violência que esses jovens negros e pobres (sem nome, sem identidade) praticam contra a sociedade (essa sim identificada: branca, de classe média, da zona sul). A realidade dos jovens pobres e negros se evidencia com a perversa estatística das mortes por violência.

Ana Glória Pires

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