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Pedir salário atrasado causa morte em Búzios

Essa matéria foi publicada na Edição 286 do Jornal Inverta, em 17/03/2001

Continua no Hospital Souza Aguiar o caseiro Paulo Soares, 41 anos, internado após receber um tiro no rosto disparado pelo patrão, o empresário e advogado Cláudio Lins.

Pedir salário atrasado causa morte em Búzios

Por: Gilka Sabino



Continua no Hospital Souza Aguiar o caseiro Paulo Soares, 41 anos, internado após receber um tiro no rosto disparado pelo patrão, o empresário e advogado Cláudio Lins. Este veio a falecer após luta corporal com Paulo que, mesmo ferido, defendeu-se e tomou a arma do patrão que foi atingido, segundo a perícia, por quatro tiros. A tese de legítima defesa é praticamente incontestável, segundo depoimento de testemunhas que estavam no local e declarações dos próprios policiais do 25ºBPM, que estavam na rua e foram chamados por vizinhos e a quem o trabalhador ferido se entregou.

A companheira de Paulo Soares, Eliana Amorim, 43 anos, declarou que ela e o marido estavam com quatro meses de salários atrasados, num total de R$2mil, e que o empresário recusava-se a pagar, teria ficado indignado ao ser cobrado pelo empregado e os ameaçara de morte várias vezes. Dessa feita, parecia que iria cumprir a promessa, pois atirou à queima-roupa no empregado, obrigando-o a se ajoelhar no chão.

Autuado por homicídio, o trabalhador e sua família aguardam ansiosos e preocupados os encaminhamentos da Justiça. Até vizinhos burgueses do empresário, sem identificarem-se, declararam que ele era mesmo “ruim de pagar”... A imprensa deu páginas e manchetes para o que chamaram de mais uma tragédia em Búzios, balneário onde estão concentrados os milionários; destacaram que ele e sua mulher, a socialite Madeleine Saade, eram ótimos anfitriões, etc, etc, amigos de pessoas ilustres, e até houve uma propagandazinha para um banquete organizado por ela, com preço, endereço e tudo....

Ficou sendo mais “uma tragédia em Búzios”, relacionando o atentado contra o caseiro que seria assassinado pelo patrão a queima-roupa por exigir pagamento de salários com outros crimes ocorridos na região. A pergunta que se faz é: seria dado o mesmo destaque, se o desfecho fosse outro? O que seria feito do casal de trabalhadores? Seriam as próximas personagens de certos programas de tevê que promovem o terror contra a classe trabalhadora e seus filhos?

A que ponto chega a arrogância da burguesia contra o trabalhador: matar para não pagar salário. Se acontece num local cheio de gente, com platéia e tudo, somente o INCRA e a Justiça do Governo FHC não acreditam que possa acontecer numa Usina de Açúcar no meio do mato...

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