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Farsa e golpe na URSS

Essa matéria foi publicada na Edição 0 do Jornal Inverta, em 26/05/2009

No dia 19 de Agosto, ainda durante as primeiras 24 horas da conjuntura que instaurou-se com a deposição de Gorbatchev pela junta de emergência e o movimento contra-golpe comandado por ex-membros do governo e do PCUS, nenhum analista político, mesmo os que estavam na URSS, como o caso de Jacob Gorender, era capaz de duvidar ou mesmo arriscar um palpite contrário ao êxito da junta de emergência.

 

Tudo "parecia" funcionar como uma articulação meticulosa e estrategicamente executada:primeiro, a onda de boicote e resistência à Perestróica e Glasnost (por fora e dentro do governo); em seguida, exercícios e testes do nível de reação popular, ao uso da força (a repressão ao movimento nacional-separatista, na Lituânia, Letônia e Estônia, e os exercícios no centro de Moscou). Paralelamente, a definição de hegemonia da "linha-dura" (ortodoxos) no governo e no PCUS, como mostram as defecções e "expurgos" dos reformistas (Yeltsin, Vadim Bakatin, Shevardnadze, Alexander Yakovlev) do governo e do partido.

 

No dia 20, a situação até nas 12 primeiras horas, parecia caminhar para um desfecho sem grandes alterações. O movimento "contra-golpe" parecia não haver concentrado forças para se opor ao processo. A greve geral não acontecia — poucas paralisações — e nem mesmo as repúblicas separatistas respondiam ao chamamento. Por outro lado, a manifestação convocada para a frente do Parlamento da Federação Russa — sob efeito da chuva — era minúscula e os rumores do deslocamento de tropas aeroterrestres para tomar o Parlamento e prender as personagens "contragolpe" parecia inevitável.

 

Da metade do dia 20 para " o dia 21, dizia de Moscou, Jacob Gorender, a situação sofreu uma alteração de 180 graus". As tropas aeroterrestres das forças armadas da Federação Russa, ao contrário de fechar o Parlamento, tinham ido para defendê-lo. As repúblicas separatistas, uma após outra, respondem com o processo de independência; milhares de pessoas vão às ruas em Moscou, Leningrado, Lituânia e demais repúblicas separatistas. Os meios de comunicação voltam a funcionar plenamente, a junta se divide, um de seus membros renuncia, outros se afastam e num ato de desespero busca uma saída negociada para o processo, reconduzindo Gorbatchev ao olho do ciclone em curso.

 

O confronto de rua, que espalhou um clima de possível guerra civil, não passou de atos de apavoramento. O toque de recolher, instituído pela junta, foi sumariamente desobedecido pelos populares e pelas próprias tropas que sediavam o Parlamento.

 

No final do 3º dia a junta "é presa", e em decorrência disto, um de seus membros "se suicida".

Gorbatchev retorna ao Kremlin e reassume a presidência da união.

 

LUIZ FELIPE G. BON — SOCIÓLOGO

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