As políticas de coalizão quando convém

No Senado, a hegemonia golpista é ainda mais evidente. A candidatura performática de José Medeiros (PSD-MT) foi um verniz eleitoral para coroar Eunício Oliveira (PMDB-CE) presidente do Senado e do Congresso Nacional com imensa margem de votos, inclusive com o apoio do PT, que indicou José Pimentel (PT-CE) para a mesa diretora.

Em recente entrevista a uma emissora de rádio da capital cearense, o presidenciável Ciro Gomes com habitual mise en scène esbravejou: “Estou cansado de alianças de conveniência!”. O motivo do desabafo foi a fragilidade do apoio que o PT e o PCdoB deram a André Figueiredo (PDT-CE) em sua candidatura para a presidência da Câmara dos Deputados: “Como é que pode o PT, que é o partido da Dilma, cogitar apoio a Rodrigo Maia e agora votar no Eunício Oliveira em troca de carguinhos?”. De fato, somente com muita pressão na base desses partidos é que suas bancadas, que antes tendiam a liberar votos ou cogitar apoiar Rodrigo Maia, migraram no último minuto para declarar voto no candidato do PDT. Por outro lado, a unidade do eixo de apoio a Michel Temer (o famoso centrão), mesmo com outras candidaturas, fez um descarado acordão para a vitória de Maia (Rogério Rosso, segundo lugar nas pesquisas, desistiu da disputa). O resultado após a eleição significa a hegemonia do projeto golpista na casa: novo mandato em primeiro turno para Rodrigo Maia (292 votos), seguido do relator do “impeachment” Jovair Arantes (105 votos). André Figueiredo ficou em terceiro (58 votos).

No Senado, a hegemonia golpista é ainda mais evidente. A candidatura performática de José Medeiros (PSD-MT) foi um verniz eleitoral para coroar Eunício Oliveira (PMDB-CE) presidente do Senado e do Congresso Nacional com imensa margem de votos, inclusive com o apoio do PT, que indicou José Pimentel (PT-CE) para a mesa diretora.

Se na Câmara Federal, André Figueiredo não conseguiu aglutinar os parlamentares de esquerda em torno de sua candidatura, no Senado, o novo presidente da casa é um dos grandes antagonistas de Ciro no Ceará. A vitória de Eunício incide no fortalecimento do rival na região onde Ciro Gomes mais se apoia. Dessa forma, os resultados foram ruins para Ciro Gomes na sua pretensão de se tornar um polo antigolpista, em meio à perseguição ao ex-presidente Lula, e se apresentar como viável candidato a presidente da República.

Mas as evidências demonstram que as alianças de conveniência com o PT e o PCdoB referidas por Ciro Gomes foram criticadas não por serem lenientes com golpistas, mas pelo simples fato de não tê-lo favorecido. A bem da verdade, o maior beneficiado e entusiasta da política de coalizão nestes últimos anos é o próprio Ciro, que inclusive ressaltou isso no final do ano passado, quando disse que a saída é “se juntar às forças de centro".

Aliás, este é o modus operandi de Ciro Gomes: iniciou no PDS (sucessor da ARENA) durante a ditadura militar, já que era conveniente; e com a redemocratização aliou-se a Tasso Jereissatti e ao PSDB, sendo figura central nos tempos áureos do neoliberalismo. Até que ele entrou no PPS para se candidatar a presidente, dizendo que o PSDB "não privatizou direito". Percebendo a evidente rejeição do povo brasileiro ao projeto neoliberal, alinhou-se ao projeto democrático-popular do PT, tornando-se um dos principais aliados na região. Com o prestígio das políticas afirmativas do governo federal para com todo o nordeste, os irmãos Ciro-Cid Gomes galgaram a hegemonia política em todo o Ceará formando um arco de alianças com pequenas lideranças locais, de partidos os mais variados, contra os antigos caciques da política cearense, outrora seus padrinhos políticos. Mas, depois do golpe de 31 de agosto, Ciro Gomes, arvorado em suas alianças de conveniência, se vê diante da possibilidade real de tornar-se candidato a presidente da República.

O maior exemplo da fisiologia que são as alianças de conveniência de Ciro Gomes é o próprio governo do Ceará, laboratório político para suas pretensões eleitorais. Apesar de ele negar com veemência ingerir no governo, o secretariado possui a sua marca pessoal de fazer política, que engloba desde seus familiares, partidos nanicos, até PT, PCdoB, PDT, PP e PSDB. Além de figuras emblemáticas como o secretário de Segurança André Costa, ovacionado pela Associação de Profissionais de Segurança (do Capitão Wagner) e queridinho dos programas policiais.

Aliás, o secretário de Segurança André Costa possui o perfil ideal para contrapor-se ao capitão Wagner. Aliás, o secretário curiosamente conta com o apoio indireto deste. Em entrevista coletiva no final de janeiro, ele declarou que "para o bandido a gente oferece duas coisas: se ele quiser se entregar, a gente oferece a justiça. Se ele quiser puxar uma arma, a gente tem o cemitério para oferecer a ele”. A declaração feita em meio à comoção gerada pela morte de um cabo da PM foi comemorada com frenesi por programas policiais e pela bancada da bala. E caiu feito uma luva para Ciro Gomes que necessitava de alguém falastrão a altura para conter a propaganda de ódio por seus adversários.

É essa a forma e o jeito “Cirão” de fazer política. A prática de relações promíscuas com pequenas oligarquias locais não é somente a tática que fez Ciro Gomes chegar até aqui, disputando como presidenciável. Mas é sua própria natureza, de representante real dessas oligarquias.

José Carapinima